sexta-feira, 7 de março de 2014

Prazer, Marginal

Todo dia é a mesma luta, a mesma guerra fria – ou quente. O fato é que ela está sempre declarada, todo dia. Todo dia tem guerra neste “lar”. Porque esse é o preço que eu pago por nascer. Eu preciso aceitar, mostrar gratidão, servir e me ajoelhar aos pés de quem me pôs no mundo. E estar sempre feliz por não ter sido abortada, claro. Porque esse é um motivo suficiente para ter dívida eterna com alguém: Não ter sido abortada numa clínica clandestina mais parecida com um açougue ou até mesmo não ter sido jogada num valão dentro de uma sacola preta minutos após o nascimento. Obrigada, queridos pais.

E não, não vou esquecer que lhes devo muito (tudo, pra ser mais exata). Mamãe me diz desde os meus 10 anos que preciso de um homem com dinheiro pra dar uma cobertura pra ela na praia e lhe pagar muitas viagens. Porque afinal, pra que serve filha mulher? Pra pegar barriga de homem com dinheiro, claro! Porque eu preciso pagar minha dívida eterna de alguma forma e tem que ser com grana, né?  Mamãe diz que mulher não tem que trabalhar “que nem uma vaca” pra sustentar a casa. Não, mulher tem que cuidar dos filhos, gastar. O marido é como um empresário que te patrocina o tempo inteiro. Além de patrocinar a sogra, claro.

E eu sou aquela filha ingrata e burra que a gente pensa que só tem na novela. Aquela que ouve 24hrs por dia que tem que usar salto, que tem que mostrar as pernas, que tem que pôr decote e sair a noite e se vestir mais sexy e arranjar alguém com grana. Não gente, não é coisa de novela. Fui chamada de marginal durante a adolescência e tive minhas blusas de bandas de rock rasgadas por um pai que achava que toda menina de 14 anos deveria se vestir de maneira sensual e jovem. E um pai e uma mãe que proibiam de  ir a shows das bandas que eu gostava enquanto quase me obrigavam a ir a bailes funk violentos e cheios de tudo o que eles, falsos moralistas, julgavam ser errado.

Até hoje, 10 anos depois, meus pais odeiam o jeito que me visto. Falam que pareço velha. Minha mãe reclama que meu biquíni não é enfiado no meu rabo, meu pai lamenta que eu não use shorts curtos, além disso, ficaram decepcionados ao ver que não mudei. Não engravidei de homem rico, não virei baladeira, nada. Eu sou uma marginal até hoje. Que ainda ouve Legião Urbana. Marginal. Que ainda ouve Nirvana. Marginal. Que ainda gosta de rock. Marginal. E que mesmo gostando de samba, de MPB, de forró pé de serra, ainda é marginal. Marginal sim, contestadora. Marginal sim, revoltada.

Fui trabalhar com meu pai uns tempos e ele e minha mãe me proibiram de andar com livros. Às vezes eu parava e simplesmente...lia. Minha família é digna, lê Brazil, lê Sexy, lê Playboy. Era essa a leitura que estava nos banheiros, na pia da cozinha, na sala da minha casa durante a minha infância. Criada à margem da pornografia. Dignidade já! E aí tinham os vídeos pornôs espalhados, o linguajar de puteiro, oba, oba! E tinha eu, marginal. Que não podia beijar porque isso era coisa de puta, que não podia transar porque isso era coisa de puta, que foi chamada de "suja" por dar seu primeiro beijo aos 14 anos, mas tinha que arrumar homem rico pra ter “estabilidade na vida”. Oi? Tsi, marginal.

Todo dia quando acordo, lembro da minha realidade, então tomo o meu anestésico local, que é a coragem que preciso pra viver. Resistir. Nem sempre funciona, mas eu tento todo dia. E eu sou persistente. Vaso ruim não quebra e como já sabem, eu sou marginal. 

Respeito se conquista

Não há respeito algum. Isso é fundamental para que entendam do que estou falando. Aos 16 tatuei “Respeito se conquista” na minha nuca após uma briga em que minha mãe dizia que eu era obrigada a respeitá-la. Não era, ninguém é. Assim como ela, como mãe, não tem o direito de me agredir física ou psicologicamente. Apenas por ser “mãe”. Não, não é. Eu venho de uma criação cheia de ofensas e de humilhações acompanhadas por uma ditadura ridícula mascarada de moralismo. Falso moralismo.

Meu papai, meu querido papai, ele também não tinha razão quando me socou naquela terça-feira de Carnaval como se fôssemos dois soldados igualmente fortes num campo de batalhas. Até hoje não entendo o motivo pelo qual ele começou o espancamento, mas confesso que durante a agressão saíram da minha boca possíveis motivos para enfurecê-lo ainda mais.  A dor não importava, eu estava anestesiada. E ele só me calaria de vez se me matasse ali, naquele sofá velho, em frente ao homem que amo – que também era ameaçado.

Até hoje não entendo o motivo do primeiro soco que recebi com todo aquele ódio, mas dos seguintes eu lembro. Não vou esquecer nunca. E toda vez que ele me olhar com aquele falso moralismo e sorrir, por dentro lembrarei do sofá, da terça-feira, do ódio naqueles olhos mentirosos e do quanto valeu a pena apanhar feito uma escrava rebelde. A verdade é como uma faca descontrolada que sai cortando e dilacerando tudo o que está ao redor . Aquela faca feriu a ele, não a mim. Eu estava apenas me livrando do porte dela. Por isso me mantive intacta, tirando os hematomas pelo corpo.